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Raciocínios, Juízos de Valor e Outros Quejandos

Um blogue para eu pensar, bufar e rir — sem moderação nem filtro.

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Opinar é o Novo Respirar

Crónica de D. Irónia

30.11.25

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Hoje em dia toda a gente acha que tem direito a opinar. Especialmente sobre assuntos que não percebe. Hoje em dia não importa o que se diz. O que importa é dizer. É a era do “não sei, mas vou dizer na mesma”. Pessoalmente, estou convencida de que a humanidade sofre é de uma imensa falta de filtro mental. Não é apenas falar sem pensar. É falar sem saber que era preciso pensar. O importante é emitir uma opinião, seja ela qual for, como se o silêncio fosse uma doença altamente contagiosa.

Há quem confunda “falar” com “contribuir”. Sempre ouvi dizer que se não temos nada simpático para dizer, devemos estar calados. Mas agora o importante é aproveitar qualquer palco para se emitir um parecer qualquer, mesmo que seja tão útil quanto uma torradeira debaixo de água. O pior é que essas pessoas não querem ajudar. Querem participar. Apenas e só. É o equivalente social da criança que levanta a mão na sala de aula só para dizer que também gosta de gelado.

E nós, pessoas de bem, pacíficas, que estamos a tentar viver um dia normal metidas na nossa vida, temos de ouvir estes comentadores de plantão que se sentem no direito quase constitucional de “dizer coisas” que não acrescentam nem calorias.

De facto, há pessoas que abrem a boca com a mesma leveza com que se abre um pacote de batatas fritas no cinema: sem qualquer noção das consequências e com um barulho irritante que ninguém pediu. E eu ali, a ouvir, e enquanto sorrio educadamente, digo: “Prometo que vou pensar no que disse. Assim que tiver um minuto para desperdiçar. Mas apreciei bastante o entusiasmo.”

É que realmente a melhor parte é a confiança com que apresentam a sua “contribuição”. A inocência quase poética de quem fala com a convicção de um cirurgião cardíaco, mas com os conhecimentos de um pacote de bolachas. É adorável, mas de uma forma triste. Quase comovente, se eu não estivesse a tentar sobreviver com algum requinte e com o mínimo de irritação possível.

E enquanto essas pessoas falam, e falam, e falam… eu penso comigo: “Se ao menos o cérebro deles trabalhasse tão rápido quanto a boca…”

Mas sou uma pessoa civilizada. E sei que a sociedade, coitadinha, não aguenta se eu disser em voz alta o que penso. Por isso fico calada, sorrio, aceno com a cabeça, enquanto, por dentro, faço a única análise possível: “A estupidez, afinal, não está em vias de extinção. Está em festa.”

 

* Imagem in Pinterest