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Raciocínios, Juízos de Valor e Outros Quejandos

Um blogue para eu pensar, bufar e rir — sem moderação nem filtro.

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O RIDÍCULO DAS “TENDÊNCIAS” E DAS “BOAS CAUSAS” DE OCASIÃO

Crónica de D. Irónia

18.11.25

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Há famílias que se dizem democráticas, progressistas e cheias de “valores”. E depois há a realidade: pequenas monarquias absolutas, lideradas por avós que se apresentam como criaturas modestas e sábias, mas que governam as dinâmicas familiares com o fervor de ditadores amadores.

Porque se há criatura que domina a arte de “não interferir”, são os avós que se acham modernos, desde que “não interferir” inclua emitir opiniões, corrigir decisões, comparar comportamentos e lançar olhares de desdém com a subtileza de um trombone num velório.

Começa sempre com aquela frase feita, polida, muito civilizada:

“Nós não nos metemos na educação dos vossos filhos.”

Dito isto, metem-se.

Metem-se com a segurança alimentar, com a idade de mudança do quarto dos pais, com as horas de ecrã, com a roupa escolhida, com a escola, com o horário de dormir, com as férias, com a temperatura da sopa e, quando a imaginação cansa, metem-se sobretudo com o que mais lhes dá prazer ancestral: comparar. Aquele pequeno exercício de manipulação que se faz com o mesmo tom doce usado para pedir mais chá:

— “Ela devia comer menos dessas coisas modernas.”

— “No meu tempo é que se sabia educar.”

— “Eu nunca permiti isto.”

— “A tua irmã faz assim e resulta.”

É extraordinário como conseguem interferir em absolutamente tudo… enquanto garantem que não interferem em nada. E assim, enquanto abanam a cabeça com pesar, vão ditando sentenças com a tranquilidade de quem confunde opinião com jurisprudência familiar.

E é aqui que entra a nora, que, até ao nascimento do bebé, achava que tinha casado com um adulto.

Engano de principiante.

Porque basta o bebé vir ao mundo para que o marido revele a sua verdadeira vocação: ser o filho não preferido a fazer estágio para ver se finalmente conquista o amor que os pais dedicam à irmã.

De repente, o pobre homem transforma-se num discípulo fervoroso do Ministério da Opinião Parental: repete tudo o que os avós dizem, segue todas as instruções, copia todas as estratégias e trata a própria mulher como se fosse uma espécie de dona de casa distraída que insiste em não seguir o evangelho segundo os sogros.

A nora assiste a isto com a mesma expressão de uma pessoa que descobre que a torradeira afinal fala chinês: perplexidade e uma vontade crescente de atirar objetos. Tudo isso enquanto tenta equilibrar ciência, instinto, sono e culpa, enfrentando ainda a artilharia moral dos progenitores do marido que juram não estar a julgar…

Ora, quando o marido se comporta como um fantoche ansioso por fazer boa figura diante dos papás, o casamento entra na fase “sala de espera do divórcio”: um espaço silencioso, tenso e onde todos fingem que está tudo bem enquanto aguardam que alguém tenha coragem de dizer a verdade.

Mas a verdade é simples: Nenhum relacionamento sobrevive quando a opinião dos sogros vale mais do que a da própria família nuclear.

E muito menos quando cada conversa se transforma numa competição para ver quem tem razão, porque quem perde é sempre o mesmo: a mãe, que acaba sistematicamente pintada pelos avós como a exagerada, a moderna, a problemática, a que não entende “como sempre se fez”.

É claro que a irmã do marido — a filha favorita — paira sobre tudo isto como uma figura quase mítica: a Criança Modelo que nasceu perfeita e cresceu sem birras, sem épocas difíceis, sem adolescência complicada e que agora serve de régua moral para medir todos os outros.

Se ela educa assim… então é porque assim é que se educa.

A nora, coitada, só aprende mais tarde que não se vive apenas com o marido: vive-se também com o fantasma da comparação permanente com a irmã dele.

E nós, espectadores involuntários, assistimos ao desfile de tendências, moralismos reciclados e boas causas de ocasião que servem apenas para esconder o mesmo de sempre: a necessidade humana de ter razão, sobretudo quando não se tem.

E, como sempre, é tudo feito “pelo bem das crianças”. Claro.

Enquanto os adultos dançam esta coreografia entre aprovação moral e acusação gratuita, a criança cresce num ambiente onde há mais opiniões do que brinquedos. Ouvindo que a mãe está “enganada”, o pai está “a tentar”, a tia é “um exemplo”, e os avós são “a enciclopédia”.

A ironia? A opinião dos avós muda ao sabor das correntes, das revistas da moda, das reportagens da televisão e, claro, das decisões da filha preferida.

Hoje é proibido. Amanhã é recomendado. Depois de amanhã, “sempre fizeram isso e nunca houve problema”. Para eles, coerência é apenas uma palavra comprida.

Nada melhor para formar um ser humano sólido e seguro, claro.

Conclusão amarga, mas obviamente elegante: no fim, o ridículo das “boas causas” e das “tendências” morais deste género de avós não está no que defendem. Está na forma como apresentam essas “causas” para mascarar favoritismos antigos e impor autoridade sob o disfarce do amor.

E enquanto isso, o casal que devia ser o centro da nova família transforma-se no palco de uma disputa de aprovação que ninguém pediu, mas onde todos sofrem.

Com sorte (muita sorte, diriamos nós) a mãe acaba por perceber que a única forma de proteger a criança é ensinar-lhe cedo que amor não deve ser confundido com controle, respeito não nasce do medo, e que há duas espécies de adultos: os que têm opinião, e os que têm necessidade patológica de a impor.

E os avós?

Ah, esses continuarão a repetir que “não se metem em nada”. É adorável a forma como conseguem dizer isto enquanto empurram a porta da educação alheia e do bom senso com os dois pés e um ar de santa inocência.

Mas não faz mal: nós, deste lado, vemos tudo.

E rimo-nos.

Com classe.

E com desdém, como deve ser.