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Raciocínios, Juízos de Valor e Outros Quejandos

Um blogue para eu pensar, bufar e rir — sem moderação nem filtro.

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O LUXO DA DÚVIDA NUM MUNDO DE CERTEZAS BARATAS

Por Constança Contraditória

10.11.25

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Dizem que a confiança é tudo. Que quando duas pessoas gostam uma da outra, tudo se resolve desde que haja paciência, comunicação e boa vontade. E, claro, amor. Também dizem que o amor é simples. Ainda não percebi se essas pessoas mentem deliberadamente ou se repetem para se convencerem… Mas é bonito de ouvir! Apesar de corresponder, na minha modesta opinião, apenas a metade da equação. A outra metade, a que não é bonita de se dizer em voz alta, é a dúvida. Esse bichinho ingrato que se vai infiltrando nas nossas mentes e nas relações mais completas e ternas, sem pedir licença. E se vai instalando à vontade, como um gato enroscado ao sol.

No meu caso, ela aparece sempre que o silêncio da outra parte é mais longo ou quando o tom da conversa é mais monocórdico. Quando um silêncio se instala entre um “estou cansado” e um “tenho saudades”. É nesse espaço que a dúvida se espreguiça e acorda. Porque o meu namorado é um homem ocupado – tão ocupado que às vezes penso que deveria ter um assistente pessoal para marcar na agenda as vezes em que não tem tempo. Disse-me, num momento de rara ingenuidade, que estaria atento a todas as oportunidades que surgissem para podermos estar juntos. E eu, ingénua também, acreditei que “estar atento” significaria aproveitar essas oportunidades para vir ter comigo, nem que fosse por pouco tempo. De facto, não foi isso que ele disse. O que me leva a concluir que a comunicação talvez não seja o nosso forte…

Mas não me entendam mal! Eu compreendo. Mesmo. Sei o quanto ele trabalha, sei o quanto faz a diferença no que faz, e juro, tenho poucos orgulhos maiores do que esse. Ele muda o país. E eu mudo… os lençóis, e, ocasionalmente, uma coisa ou outra de sítio (o que só atrapalha a minha vida porque depois não me lembro para onde mudei).

E às vezes ele vem. Outras vezes, as oportunidades passam como um comboio fora do horário. E culpo o trânsito, o cansaço, o universo, o destino ou tudo junto. E continuo a compreender. Só que compreender não anula o vazio. E gostava que, de vez em quando, o mundo esperasse 5 minutos para ele me dar um beijo. Ou um abraço, vá. Porque os nossos beijos tendem a estenderem-se num tempo que não temos.

O que me confunde é esta dança entre o racional e o emocional. Por um lado, admiro imenso a sua capacidade de entrega e a sua dedicação a tudo em todas as áreas da sua vida. Por outro não consigo deixar de me perguntar se não é essa dedicação que me afasta. É um dilema entre o compreender e apoiar e o querer tê-lo um bocadinho para mim. O que não deixa de ser um dilema curioso – querer alguém inteiro e perceber que o “inteiro” dele inclui o tempo que não é meu.

Ele diz que não me conta os planos “para eu não criar expectativas” que depois podem sair furadas. É um gesto nobre, que demonstra o quanto gosta de mim. Por um lado! Por outro, em vez de criar expectativas, crio crises existenciais! Porque ao tentar poupar-me à desilusão, deixa-me sozinha com a incerteza. É a mesma coisa que usar um martelo para curar uma dor de cabeça!

Isto irrita-me (com toda a ternura que tenho por ele) porque estamos a repetir o comportamento do resto do mundo: a viver rodeados de “certezas baratas”. Toda a gente convencida de que o outro “sabe” o que sentimos, “adivinha” o que queremos e “entende” o que não dissemos. Todos convencidos de que o amor, a empatia ou o bom senso se adivinham. “Claro que ele sabe o que sinto”, “óbvio que ela entende o que eu quis dizer”, “não é preciso explicar”. A minha teoria é que a crise financeira nos ensinou de tal forma a poupar que economizamos até na comunicação! E estamos prestes a receber um aviso de insolvência emocional.

Talvez ele pense que eu entendo tudo. Que, por gostar tanto dele, adivinho as suas intenções, os seus cansaços e as suas vontades não ditas. E às vezes até adivinho. Não quero ser injusta, não quero ser a namorada que reclama de um homem cansado que está a tentar acudir a tudo e a fazer o melhor que pode. Mas também não quero ser a mulher que engole o que sente em nome da compreensão eterna. Porque nem sempre o que compreendemos corresponde à verdade. Tento não me queixar (muito!). Afinal, falo com ele todos os dias ao telefone e usamos as novas tecnologias para estarmos em contacto. É o que costumo chamar de “romance com cobertura multitasking”! Só que em vez de sermos românticos, somos cronistas da paciência.

No fundo, sei que sentir e pensar são tarefas incompatíveis. E que penso demais e sinto o dobro. Mas talvez por isso preciso de correr o risco de ser injusta, só para não desistir. Porque enquanto duvido, é sinal de que ainda acredito – mesmo que às vezes (muitas) me irrite com isso. O luxo da dúvida é mesmo esse: o direito de rir do ridículo de querer certezas num mundo que nem sempre sabe confirmar presenças.

 

Constança Contraditória

* Imagem in Pinterest