“Delegar? Eu? Jamais! Prefiro sofrer!” — O meu patrão, todos os dias.
Por Maria Sem-Paciência

Hoje, durante uma pequena conversa entre mim e o meu patrão, ele recebeu um telefonema. E embora estivéssemos a discutir assuntos importantes para o bom andamento do trabalho interno e até alguma estratégia futura, ele atendeu. Era outro funcionário dele, de um outro negócio. Imediatamente, o meu patrão assumiu aquele ar de mártir corporativo: olhos semicerrados, mão no coração, enquanto dizia:
“Está a ver a minha vida? É tudo para cima de mim! Não aguento!”
E eu, claro, fiz aquela cara profissional de ‘realmente, que sorte a sua, senhor doutor’, enquanto por dentro gritava:
ENTÃO DELEGUE, HOMEM! DE-LE-GUE!
Mas não disse.
Porque gosto de comer.
E, aparentemente, perder o emprego reduz o orçamento para comida — ouvi dizer.
Mas a verdade é que o homem não delega. Nem um post-it!!
Mas eu acho que é de propósito. Ele gosta assim.
Há pessoas que não delegam porque não confiam em ninguém.
E depois queixam-se que trabalham demais.
É como dizer “estou sempre cheio de fome” enquanto se guarda o almoço num cofre com código secreto.
O meu patrão é assim: vive rodeado de pessoas contratadas precisamente para o ajudar, mas olha para todos como se fôssemos bombas-relógio emocionais prestes a explodir em incompetência.
Eu incluída.
É um vício.
Um hobby.
Um estilo de vida.
Só para poder dizer que “ninguém o ajuda”.
Ele olha para a equipa — nós, comuns mortais perfeitamente capazes, alguns até adultos funcionais — como se fôssemos crianças que podem, a qualquer momento, enfiar uma banana na ficha elétrica.
E depois surpreende-se que anda exausto.
E penso "Oh, meu querido, chama-se consequências."
Mas o que digo é:
“Realmente! Pois, claro, compreendo perfeitamente.”
Ah, a hipocrisia do trabalho!
E imediatamente sinto o meu espírito a sair do corpo, a bater-me na cabeça e a gritar: “PORQUE RAIOS DISSESTE ISSO?! Não compreendes nada!”
Mas é o teatro empresarial. Mesmo que não haja bilhetes à venda, é um espetáculo digno de se ver. E relembro-me, mais uma vez:
“Atenção ao que dizes! Ele não quer a tua opinião, só quer que concordes com ele. Lembra-te que tens contas para pagar. Pensa! Pen-sa!”
Custa-me horrores. É cardio mental!
Então respiro fundo, meto a máscara de colaboradora equilibrada, e solto esta pérola, com voz suave, quase zen:
“Se precisar de apoio, diga. Estou cá para ajudar.”
AAAAAAAAAAHHHH. Por dentro, estou a arrancar cabelos e a cortar os pulsos…
Mas pronto, continuo viva e com salário.
O homem lá segue caminho, carregado de tarefas que podia dividir por cinco pessoas, mas prefere arrastar como uma mula dramática para provar que “é difícil ser líder”. E no fim do dia, ele lá foi embora, exausto da carga emocional de ser indispensável — e eu fiquei a pensar que o mundo empresarial é isto:
Um conjunto de adultos que têm medo de pedir ajuda e depois fazem queixa ao universo como se fossem vítimas de uma tragédia grega, quando a tragédia são eles próprios.
E eu?
Eu, escrevi este texto sentada, com a paciência no nível negativo, a pensar:
O problema dos patrões não é falta de tempo.
É excesso de ego.
Mas pronto…
Não digo isto em voz alta.
Que ainda preciso do ordenado para pagar os meus snacks anti-stress.
Assina com frustração e honestidade,
Maria Sem-Paciência
