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Raciocínios, Juízos de Valor e Outros Quejandos

Um blogue para eu pensar, bufar e rir — sem moderação nem filtro.

Raciocínios, Juízos de Valor e Outros Quejandos

Um blogue para eu pensar, bufar e rir — sem moderação nem filtro.

Opinar é o Novo Respirar

Crónica de D. Irónia

30.11.25

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Hoje em dia toda a gente acha que tem direito a opinar. Especialmente sobre assuntos que não percebe. Hoje em dia não importa o que se diz. O que importa é dizer. É a era do “não sei, mas vou dizer na mesma”. Pessoalmente, estou convencida de que a humanidade sofre é de uma imensa falta de filtro mental. Não é apenas falar sem pensar. É falar sem saber que era preciso pensar. O importante é emitir uma opinião, seja ela qual for, como se o silêncio fosse uma doença altamente contagiosa.

Há quem confunda “falar” com “contribuir”. Sempre ouvi dizer que se não temos nada simpático para dizer, devemos estar calados. Mas agora o importante é aproveitar qualquer palco para se emitir um parecer qualquer, mesmo que seja tão útil quanto uma torradeira debaixo de água. O pior é que essas pessoas não querem ajudar. Querem participar. Apenas e só. É o equivalente social da criança que levanta a mão na sala de aula só para dizer que também gosta de gelado.

E nós, pessoas de bem, pacíficas, que estamos a tentar viver um dia normal metidas na nossa vida, temos de ouvir estes comentadores de plantão que se sentem no direito quase constitucional de “dizer coisas” que não acrescentam nem calorias.

De facto, há pessoas que abrem a boca com a mesma leveza com que se abre um pacote de batatas fritas no cinema: sem qualquer noção das consequências e com um barulho irritante que ninguém pediu. E eu ali, a ouvir, e enquanto sorrio educadamente, digo: “Prometo que vou pensar no que disse. Assim que tiver um minuto para desperdiçar. Mas apreciei bastante o entusiasmo.”

É que realmente a melhor parte é a confiança com que apresentam a sua “contribuição”. A inocência quase poética de quem fala com a convicção de um cirurgião cardíaco, mas com os conhecimentos de um pacote de bolachas. É adorável, mas de uma forma triste. Quase comovente, se eu não estivesse a tentar sobreviver com algum requinte e com o mínimo de irritação possível.

E enquanto essas pessoas falam, e falam, e falam… eu penso comigo: “Se ao menos o cérebro deles trabalhasse tão rápido quanto a boca…”

Mas sou uma pessoa civilizada. E sei que a sociedade, coitadinha, não aguenta se eu disser em voz alta o que penso. Por isso fico calada, sorrio, aceno com a cabeça, enquanto, por dentro, faço a única análise possível: “A estupidez, afinal, não está em vias de extinção. Está em festa.”

 

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“Delegar? Eu? Jamais! Prefiro sofrer!” — O meu patrão, todos os dias.

Por Maria Sem-Paciência

24.11.25

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Hoje, durante uma pequena conversa entre mim e o meu patrão, ele recebeu um telefonema. E embora estivéssemos a discutir assuntos importantes para o bom andamento do trabalho interno e até alguma estratégia futura, ele atendeu. Era outro funcionário dele, de um outro negócio. Imediatamente, o meu patrão assumiu aquele ar de mártir corporativo: olhos semicerrados, mão no coração, enquanto dizia:

“Está a ver a minha vida? É tudo para cima de mim! Não aguento!”

E eu, claro, fiz aquela cara profissional de ‘realmente, que sorte a sua, senhor doutor’, enquanto por dentro gritava:
ENTÃO DELEGUE, HOMEM! DE-LE-GUE!

Mas não disse.
Porque gosto de comer.
E, aparentemente, perder o emprego reduz o orçamento para comida — ouvi dizer.

Mas a verdade é que o homem não delega. Nem um post-it!!

Mas eu acho que é de propósito. Ele gosta assim.

Há pessoas que não delegam porque não confiam em ninguém.
E depois queixam-se que trabalham demais.
É como dizer “estou sempre cheio de fome” enquanto se guarda o almoço num cofre com código secreto.

O meu patrão é assim: vive rodeado de pessoas contratadas precisamente para o ajudar, mas olha para todos como se fôssemos bombas-relógio emocionais prestes a explodir em incompetência.
Eu incluída.

É um vício.
Um hobby.
Um estilo de vida.

Só para poder dizer que “ninguém o ajuda”.

Ele olha para a equipa — nós, comuns mortais perfeitamente capazes, alguns até adultos funcionais — como se fôssemos crianças que podem, a qualquer momento, enfiar uma banana na ficha elétrica.
E depois surpreende-se que anda exausto.
E penso "Oh, meu querido, chama-se consequências."

Mas o que digo é:
“Realmente! Pois, claro, compreendo perfeitamente.”

Ah, a hipocrisia do trabalho!

E imediatamente sinto o meu espírito a sair do corpo, a bater-me na cabeça e a gritar: “PORQUE RAIOS DISSESTE ISSO?! Não compreendes nada!”

Mas é o teatro empresarial. Mesmo que não haja bilhetes à venda, é um espetáculo digno de se ver. E relembro-me, mais uma vez:

“Atenção ao que dizes! Ele não quer a tua opinião, só quer que concordes com ele. Lembra-te que tens contas para pagar. Pensa! Pen-sa!”

Custa-me horrores. É cardio mental!

Então respiro fundo, meto a máscara de colaboradora equilibrada, e solto esta pérola, com voz suave, quase zen:

“Se precisar de apoio, diga. Estou cá para ajudar.”

AAAAAAAAAAHHHH. Por dentro, estou a arrancar cabelos e a cortar os pulsos…

Mas pronto, continuo viva e com salário.

O homem lá segue caminho, carregado de tarefas que podia dividir por cinco pessoas, mas prefere arrastar como uma mula dramática para provar que “é difícil ser líder”. E no fim do dia, ele lá foi embora, exausto da carga emocional de ser indispensável — e eu fiquei a pensar que o mundo empresarial é isto:
Um conjunto de adultos que têm medo de pedir ajuda e depois fazem queixa ao universo como se fossem vítimas de uma tragédia grega, quando a tragédia são eles próprios.

E eu?
Eu, escrevi este texto sentada, com a paciência no nível negativo, a pensar:

O problema dos patrões não é falta de tempo.
É excesso de ego.

Mas pronto…
Não digo isto em voz alta.
Que ainda preciso do ordenado para pagar os meus snacks anti-stress.

Assina com frustração e honestidade,
Maria Sem-Paciência

O RIDÍCULO DAS “TENDÊNCIAS” E DAS “BOAS CAUSAS” DE OCASIÃO

Crónica de D. Irónia

18.11.25

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Há famílias que se dizem democráticas, progressistas e cheias de “valores”. E depois há a realidade: pequenas monarquias absolutas, lideradas por avós que se apresentam como criaturas modestas e sábias, mas que governam as dinâmicas familiares com o fervor de ditadores amadores.

Porque se há criatura que domina a arte de “não interferir”, são os avós que se acham modernos, desde que “não interferir” inclua emitir opiniões, corrigir decisões, comparar comportamentos e lançar olhares de desdém com a subtileza de um trombone num velório.

Começa sempre com aquela frase feita, polida, muito civilizada:

“Nós não nos metemos na educação dos vossos filhos.”

Dito isto, metem-se.

Metem-se com a segurança alimentar, com a idade de mudança do quarto dos pais, com as horas de ecrã, com a roupa escolhida, com a escola, com o horário de dormir, com as férias, com a temperatura da sopa e, quando a imaginação cansa, metem-se sobretudo com o que mais lhes dá prazer ancestral: comparar. Aquele pequeno exercício de manipulação que se faz com o mesmo tom doce usado para pedir mais chá:

— “Ela devia comer menos dessas coisas modernas.”

— “No meu tempo é que se sabia educar.”

— “Eu nunca permiti isto.”

— “A tua irmã faz assim e resulta.”

É extraordinário como conseguem interferir em absolutamente tudo… enquanto garantem que não interferem em nada. E assim, enquanto abanam a cabeça com pesar, vão ditando sentenças com a tranquilidade de quem confunde opinião com jurisprudência familiar.

E é aqui que entra a nora, que, até ao nascimento do bebé, achava que tinha casado com um adulto.

Engano de principiante.

Porque basta o bebé vir ao mundo para que o marido revele a sua verdadeira vocação: ser o filho não preferido a fazer estágio para ver se finalmente conquista o amor que os pais dedicam à irmã.

De repente, o pobre homem transforma-se num discípulo fervoroso do Ministério da Opinião Parental: repete tudo o que os avós dizem, segue todas as instruções, copia todas as estratégias e trata a própria mulher como se fosse uma espécie de dona de casa distraída que insiste em não seguir o evangelho segundo os sogros.

A nora assiste a isto com a mesma expressão de uma pessoa que descobre que a torradeira afinal fala chinês: perplexidade e uma vontade crescente de atirar objetos. Tudo isso enquanto tenta equilibrar ciência, instinto, sono e culpa, enfrentando ainda a artilharia moral dos progenitores do marido que juram não estar a julgar…

Ora, quando o marido se comporta como um fantoche ansioso por fazer boa figura diante dos papás, o casamento entra na fase “sala de espera do divórcio”: um espaço silencioso, tenso e onde todos fingem que está tudo bem enquanto aguardam que alguém tenha coragem de dizer a verdade.

Mas a verdade é simples: Nenhum relacionamento sobrevive quando a opinião dos sogros vale mais do que a da própria família nuclear.

E muito menos quando cada conversa se transforma numa competição para ver quem tem razão, porque quem perde é sempre o mesmo: a mãe, que acaba sistematicamente pintada pelos avós como a exagerada, a moderna, a problemática, a que não entende “como sempre se fez”.

É claro que a irmã do marido — a filha favorita — paira sobre tudo isto como uma figura quase mítica: a Criança Modelo que nasceu perfeita e cresceu sem birras, sem épocas difíceis, sem adolescência complicada e que agora serve de régua moral para medir todos os outros.

Se ela educa assim… então é porque assim é que se educa.

A nora, coitada, só aprende mais tarde que não se vive apenas com o marido: vive-se também com o fantasma da comparação permanente com a irmã dele.

E nós, espectadores involuntários, assistimos ao desfile de tendências, moralismos reciclados e boas causas de ocasião que servem apenas para esconder o mesmo de sempre: a necessidade humana de ter razão, sobretudo quando não se tem.

E, como sempre, é tudo feito “pelo bem das crianças”. Claro.

Enquanto os adultos dançam esta coreografia entre aprovação moral e acusação gratuita, a criança cresce num ambiente onde há mais opiniões do que brinquedos. Ouvindo que a mãe está “enganada”, o pai está “a tentar”, a tia é “um exemplo”, e os avós são “a enciclopédia”.

A ironia? A opinião dos avós muda ao sabor das correntes, das revistas da moda, das reportagens da televisão e, claro, das decisões da filha preferida.

Hoje é proibido. Amanhã é recomendado. Depois de amanhã, “sempre fizeram isso e nunca houve problema”. Para eles, coerência é apenas uma palavra comprida.

Nada melhor para formar um ser humano sólido e seguro, claro.

Conclusão amarga, mas obviamente elegante: no fim, o ridículo das “boas causas” e das “tendências” morais deste género de avós não está no que defendem. Está na forma como apresentam essas “causas” para mascarar favoritismos antigos e impor autoridade sob o disfarce do amor.

E enquanto isso, o casal que devia ser o centro da nova família transforma-se no palco de uma disputa de aprovação que ninguém pediu, mas onde todos sofrem.

Com sorte (muita sorte, diriamos nós) a mãe acaba por perceber que a única forma de proteger a criança é ensinar-lhe cedo que amor não deve ser confundido com controle, respeito não nasce do medo, e que há duas espécies de adultos: os que têm opinião, e os que têm necessidade patológica de a impor.

E os avós?

Ah, esses continuarão a repetir que “não se metem em nada”. É adorável a forma como conseguem dizer isto enquanto empurram a porta da educação alheia e do bom senso com os dois pés e um ar de santa inocência.

Mas não faz mal: nós, deste lado, vemos tudo.

E rimo-nos.

Com classe.

E com desdém, como deve ser.

 

A VOZ ROUCA DO PODER - Versão com fúria devidamente calibrada

Por Carolina Cáustica

16.11.25

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Há quem diga que o corpo fala. No meu caso, o corpo grita — e depois fica rouco.

Fui à terapia da fala. Não por vaidade vocal, mas porque andava sempre rouca. Pensei que fosse a minha voz sexy acumulada, ou uma pitada saudável de indignação com o mundo em geral, ou, talvez, a quantidade industrial de sapos engolidos em nome da diplomacia profissional.

A médica, porém, diagnosticou-me outra coisa: eu estava a falar numa frequência masculina. Não por gosto. Por sobrevivência.

O mais trágico? Isto não é anedota, é sintoma. Um daqueles sintomas silenciosos que revelam, melhor do que qualquer relatório corporativo cor-de-rosa, a verdade que ninguém gosta de admitir: para sermos ouvidas, continuamos a ter de nos adaptar ao molde masculino do poder.

Não para parecer mais fortes, note-se. Apenas para sermos audíveis.

A explicação “científica” é deliciosa: os homens, diz ela, tendem a reagir melhor a vozes na mesma frequência que a deles (como cães que só respondem a um certo apito, digo eu). É quase comovente. Parece que o cérebro masculino, ao ouvir um som de uma frequência diferente da sua, entra em modo mute seletivo. Não é maldade, é biologia adaptada à conveniência.

Aparentemente, trabalhar com homens — sobretudo em cargos de liderança — leva muitas mulheres a baixar inconscientemente o tom da sua voz. Não o timbre. Não o estilo. A frequência.

Então, fico eu aqui, com uma corda vocal cansada e uma dúvida existencial: será isto prova da admirável capacidade de adaptação feminina ou apenas mais um capítulo da tragicomédia corporativa? É bonito pensar que somos evolutivamente flexíveis, que ajustamos o tom para sobreviver à selva dos gabinetes. Mas também é triste perceber que, em pleno século XXI, ainda precisamos de calibrar a voz para sermos levadas a sério.

Porque, convenhamos, há qualquer coisa de profundamente irónico em ter de "imitar a frequência do opressor" para ser reconhecida como igual.

O corpo, como sempre, compreende mais depressa do que a sociedade permite admitir: “Se queres ser ouvida, ajusta-te.”

E este ajuste não vive sozinho. Ele é irmão gémeo de todos os dados que os estudos descrevem com doçura estatística: as mulheres portuguesas são mais qualificadas, ganham menos e chegam menos aos cargos de topo. A isto chama-se “discrepância”. Eu prefiro chamar-lhe “descaramento institucional”.

Há dados, gráficos, entrevistas, tudo muito higiénico e objetivo:

— vozes mais graves são associadas a competência, autoridade e credibilidade;

— vozes femininas mais agudas são interpretadas como menos assertivas;

— homens interrompem mais quando a voz da mulher é leve;

— e, claro, as mulheres compensam baixando o tom.

Resultado? Passamos anos a modular a voz sem saber — e voltamos para casa roucas, exaustas e com uma inflamação nas cordas vocais que não aparece nos relatórios de gestão anuais, mas devia.

E a pergunta inevitável: isto é evolução… ou tragédia?

É admirável que sejamos capazes de nos adaptar até no que não controlamos: a frequência da nossa voz. É uma prova da elasticidade feminina — a mesma que nos torna capazes de liderar equipas, apagar incêndios emocionais, mediar conflitos, apresentar resultados e ainda sorrir na reunião.

Mas também é profundamente triste que, em 2025, ainda precisemos de literalmente mudar a nossa voz para sermos tratadas como iguais.

Chamem-me sensível, mas algo está errado quando uma mulher precisa de imitar o registo vocal do homem para não ser confundida com música de fundo da reunião.

E o resultado está à vista:

Quando um homem tem sucesso, é competente. Quando uma mulher tem sucesso, foi sorte. Ou “foi ajudada”. Ainda hoje. Em 2025. É este o nível intelectual da coisa.

E o mais absurdo é que isto é tomado como natural.

Natural que os lugares de topo estejam cheios de homens.

Natural que as mulheres fiquem nos níveis hierárquicos inferiores.

Natural que ganhem menos.

Natural que tenham de falar mais grave.

Natural que tenham de se adaptar.

E aqui entramos no território do grotesco: se a minha voz não tiver a frequência certa, o sistema não me ouve.

Não a minha argumentação.

Não a minha experiência.

Não o meu raciocínio.

A minha frequência.

O poder, afinal, não é surdo. É seletivo. Responde apenas a um tipo de input: masculino, grave, seguro de si (mesmo quando não há nada para estar seguro), institucionalmente protegido e emocionalmente dispensável.

O mais irónico, e quase cómico, é que todos estes homens tiveram mãe. Mães que os ensinaram a falar, a comer, a pensar, a existir. E mesmo assim, crescem convencidos de que uma mulher na sala é uma versão secundária do colega ao lado. É uma engenharia social ridícula e o mundo avança… para trás.

Enquanto isso, as empresas discutem Inteligência Artificial como se fosse a nova prata da casa. Treinam modelos, afinam algoritmos, implementam chatbots que falam como humanos. E silenciam humanos que falam como humanos.

É fascinante:

— Se a voz é grave, é competente.

— Se é aguda, é emocional.

— Se é neutra, promovem o chatbot.

A humanidade orgulha-se de avançar tecnologicamente enquanto regride moralmente (e mentalmente…). Já não é só a voz que está rouca. É a paciência.

Se o acesso aos lugares de chefia continuar reservado aos homens, seja por tradição, preguiça institucional ou estupidez bem instalada, o futuro das empresas não será distópico. Será apenas a continuação lógica da estupidez.

Primeiro, as empresas vão transformar-se em câmaras masculinas: salas onde se tomam decisões repetidas, previsíveis, confortáveis, mas perigosamente desligadas da realidade. Organizações onde todos pensam da mesma maneira não inovam, estagnam. E estagnação, em linguagem corporativa, chama-se falência lenta.

Depois, a força laboral feminina vai perceber o óbvio: não vale a pena aspirar a nada. As mulheres vão abandonar a corrida. Não por incapacidade, mas por lucidez.

Irão criar negócios próprios, migrar para organizações que entendem talento sem filtro de género, ou simplesmente recusar participar em estruturas onde a ascensão depende mais de cromossomas do que de mérito.

E o que fica para trás? Empresas com equipas de liderança monocromáticas, desconectadas, incapazes de compreender metade da população que supostamente servem.

E quando, daqui a uns anos, os mesmos homens perguntarem porque é que as empresas que lideram não inovam, não crescem, não retêm talento e não conseguem sobreviver à concorrência, eu responderei, rouca mas lúcida:

Foi o que aconteceu quando confundiram poder com posse, liderança com tradição e diversidade com ameaça. Foi o que aconteceu quando decidiram que metade da humanidade era opcional.

 

Carolina Cáustica

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O LUXO DA DÚVIDA NUM MUNDO DE CERTEZAS BARATAS

Por Constança Contraditória

10.11.25

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Dizem que a confiança é tudo. Que quando duas pessoas gostam uma da outra, tudo se resolve desde que haja paciência, comunicação e boa vontade. E, claro, amor. Também dizem que o amor é simples. Ainda não percebi se essas pessoas mentem deliberadamente ou se repetem para se convencerem… Mas é bonito de ouvir! Apesar de corresponder, na minha modesta opinião, apenas a metade da equação. A outra metade, a que não é bonita de se dizer em voz alta, é a dúvida. Esse bichinho ingrato que se vai infiltrando nas nossas mentes e nas relações mais completas e ternas, sem pedir licença. E se vai instalando à vontade, como um gato enroscado ao sol.

No meu caso, ela aparece sempre que o silêncio da outra parte é mais longo ou quando o tom da conversa é mais monocórdico. Quando um silêncio se instala entre um “estou cansado” e um “tenho saudades”. É nesse espaço que a dúvida se espreguiça e acorda. Porque o meu namorado é um homem ocupado – tão ocupado que às vezes penso que deveria ter um assistente pessoal para marcar na agenda as vezes em que não tem tempo. Disse-me, num momento de rara ingenuidade, que estaria atento a todas as oportunidades que surgissem para podermos estar juntos. E eu, ingénua também, acreditei que “estar atento” significaria aproveitar essas oportunidades para vir ter comigo, nem que fosse por pouco tempo. De facto, não foi isso que ele disse. O que me leva a concluir que a comunicação talvez não seja o nosso forte…

Mas não me entendam mal! Eu compreendo. Mesmo. Sei o quanto ele trabalha, sei o quanto faz a diferença no que faz, e juro, tenho poucos orgulhos maiores do que esse. Ele muda o país. E eu mudo… os lençóis, e, ocasionalmente, uma coisa ou outra de sítio (o que só atrapalha a minha vida porque depois não me lembro para onde mudei).

E às vezes ele vem. Outras vezes, as oportunidades passam como um comboio fora do horário. E culpo o trânsito, o cansaço, o universo, o destino ou tudo junto. E continuo a compreender. Só que compreender não anula o vazio. E gostava que, de vez em quando, o mundo esperasse 5 minutos para ele me dar um beijo. Ou um abraço, vá. Porque os nossos beijos tendem a estenderem-se num tempo que não temos.

O que me confunde é esta dança entre o racional e o emocional. Por um lado, admiro imenso a sua capacidade de entrega e a sua dedicação a tudo em todas as áreas da sua vida. Por outro não consigo deixar de me perguntar se não é essa dedicação que me afasta. É um dilema entre o compreender e apoiar e o querer tê-lo um bocadinho para mim. O que não deixa de ser um dilema curioso – querer alguém inteiro e perceber que o “inteiro” dele inclui o tempo que não é meu.

Ele diz que não me conta os planos “para eu não criar expectativas” que depois podem sair furadas. É um gesto nobre, que demonstra o quanto gosta de mim. Por um lado! Por outro, em vez de criar expectativas, crio crises existenciais! Porque ao tentar poupar-me à desilusão, deixa-me sozinha com a incerteza. É a mesma coisa que usar um martelo para curar uma dor de cabeça!

Isto irrita-me (com toda a ternura que tenho por ele) porque estamos a repetir o comportamento do resto do mundo: a viver rodeados de “certezas baratas”. Toda a gente convencida de que o outro “sabe” o que sentimos, “adivinha” o que queremos e “entende” o que não dissemos. Todos convencidos de que o amor, a empatia ou o bom senso se adivinham. “Claro que ele sabe o que sinto”, “óbvio que ela entende o que eu quis dizer”, “não é preciso explicar”. A minha teoria é que a crise financeira nos ensinou de tal forma a poupar que economizamos até na comunicação! E estamos prestes a receber um aviso de insolvência emocional.

Talvez ele pense que eu entendo tudo. Que, por gostar tanto dele, adivinho as suas intenções, os seus cansaços e as suas vontades não ditas. E às vezes até adivinho. Não quero ser injusta, não quero ser a namorada que reclama de um homem cansado que está a tentar acudir a tudo e a fazer o melhor que pode. Mas também não quero ser a mulher que engole o que sente em nome da compreensão eterna. Porque nem sempre o que compreendemos corresponde à verdade. Tento não me queixar (muito!). Afinal, falo com ele todos os dias ao telefone e usamos as novas tecnologias para estarmos em contacto. É o que costumo chamar de “romance com cobertura multitasking”! Só que em vez de sermos românticos, somos cronistas da paciência.

No fundo, sei que sentir e pensar são tarefas incompatíveis. E que penso demais e sinto o dobro. Mas talvez por isso preciso de correr o risco de ser injusta, só para não desistir. Porque enquanto duvido, é sinal de que ainda acredito – mesmo que às vezes (muitas) me irrite com isso. O luxo da dúvida é mesmo esse: o direito de rir do ridículo de querer certezas num mundo que nem sempre sabe confirmar presenças.

 

Constança Contraditória

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Raciocínios, Juízos de Valor e Outros Quejandos

07.11.25

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Este espaço não promete neutralidade, otimismo ou paciência.

Promete apenas aquilo que o mundo parece temer: opinião, raciocínio próprio e uma boa dose de ironia indignada.

Aqui escrevem quatro mulheres que partilham a mesma cabeça e o mesmo tique nervoso cada vez que alguém diz “não leves a mal, mas…”. Entre elas há mais desacordo do que harmonia, mas todas têm um objetivo comum: sobreviver à insanidade quotidiana com a lucidez possível.

 

Maria Sem-Paciência:

A especialista em perder a calma e ganhar material de escrita.

Observa o quotidiano com um misto de horror e resignação cómica. Escreve como quem desabafa para não atirar objetos pelo ar.

Assuntos que lhe fazem tremer os olhos: colegas iluminados, reuniões inúteis, dramas familiares e a fauna do trânsito.

 

D. Irónia:

A cronista de salão da decadência contemporânea.

Prefere servir o sarcasmo em chávenas de porcelana e acredita que o bom humor é uma forma superior de vingança.

Olha para a política, a moral e as “tendências sociais” como quem observa um espetáculo de circo — com elegância, mas de longe.

Assuntos que lhe despertam o desdém: moralismo hipócrita, virtude performativa, etiqueta de aparências e líderes com discurso de almofada.

 

Carolina Cáustica

O bisturi do grupo. Analisa o mundo com precisão e fúria contida.

Não grita — escreve, e isso costuma doer mais.

Acredita que a raiva lúcida é uma forma de amor à humanidade.

Assuntos que a inflamam: injustiças, mediocridade institucional, gente tóxica e o ridículo das estruturas de poder.

 

Constança Contraditória

A voz que pensa antes de rir — e depois ri mesmo assim.

É introspetiva, mas não melosa; filosófica, mas não insuportável.

Constança habita o território ambíguo entre o “quero ter razão” e o “já desisti”.

Assuntos que a inspiram: culpa, incoerências emocionais, dilemas modernos e o humor que nasce do próprio absurdo de existir.

 

Em resumo:

“Raciocínios, Juízos de Valor e Outros Quejandos” é um exercício de catarse pública sem pretensões literárias mas com ataques de nervos.

Um espaço onde o pensamento não vem embalado, a opinião não pede licença e a sinceridade chega com olheiras.

Por me irritar com frequência, penso nisto como um grupo de apoio.